Conversa Social: “A educação inclusiva não restringe sua atuação – trabalha as diferenças humanas”

Rodrigo Hübner Mendes abre a primeira entrevista da nova série da Fundação Volkswagen: Conversa Social
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O nome Rodrigo Mendes é conhecido em duas áreas: no futebol e na educação inclusiva. No futebol, Rodrigo Fabiano Mendes garantiu algumas conquistas com a camisa do Flamengo na década de 1990.

Na educação inclusiva, Rodrigo Hübner Mendes atua no meio-campo para que cada vez mais crianças e adolescentes com deficiência sejam incluídos nas salas de aula regulares.

Para isso, fundou o Instituto Rodrigo Mendes (IRM) em 1994. Hoje, a organização desenvolve pesquisas, formação de educadores e contribui para as políticas públicas voltadas aos direitos humanos e à educação inclusiva.

Em parceria com a Fundação Volkswagen, o IRM realiza o projeto DIVERSA Presencial, que já beneficiou 13 municípios. A iniciativa reúne representantes de secretarias de educação, gestores escolares e professoras e professores para debater sobre os desafios da educação inclusiva, a partir de situações reais vivenciadas pelos participantes.

Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Fundação Volkswagen: “A inclusão é uma ideia poderosa e desafiadora, assumida por quem tem o compromisso de disseminar, em um mundo habituado a modelos e diferenciações excludentes, a garantia do direito à diferença, na igualdade de direitos” – Maria Teresa Eglér Mantoan. Como você aplica esta retórica à educação e, mais ainda, à educação inclusiva?

Rodrigo Hübner Mendes: É importante alinhar o que chamamos de educação inclusiva. Tenho trabalhado com a visão de que a escola inclusiva é aquela capaz de acolher todos e de perseguir altas expectativas para cada um.

Ela iguala oportunidades e garante direitos. Ao mesmo tempo, diversifica as suas estratégias de ensino por entender que cada pessoa aprende de uma maneira particular. A educação inclusiva não restringe sua atuação ao público X ou Y, mas trabalha as diferenças humanas presentes em todos os estudantes que precisam ser atendidas hoje, não no futuro.

Pensando na citação da Maria Teresa, especialista muito importante nesse campo, acredito que o paradigma da educação inclusiva traz certo “radicalismo” – no bom sentido da palavra –, na medida em que requer um conjunto amplo de rupturas.

A primeira delas é com o modelo de ensino ainda predominante. O professor assume o papel de detentor ou emissor do conhecimento e espera que os alunos absorvam esse conteúdo no mesmo tempo e da mesma forma. Esse modelo não se sustenta mais, pois não conversa com as demandas do mundo contemporâneo.

O segundo exemplo tem a ver com o que almejamos no processo de ensino e aprendizagem. É importante que haja o deslocamento com foco para as competências cognitivas e uma valorização maior das chamadas competências sociais e emocionais.

Por fim, é necessário rever a forma como a gente percebe uma sala de aula diversa. Não enxergar esse fato como um problema, mas como uma oportunidade muito preciosa para que cada criança possa – desde a primeira idade – conviver com uma realidade de como é a sociedade. Dessa forma, ela passa a se relacionar com as diferenças, buscar mediação de conflitos, estabelecer cooperação. Habilidades essas que são muito necessárias para o mundo atual.

FVW: Qual a importância do investimento social privado para o fortalecimento da educação inclusiva?

RHM: O investimento social privado é uma ferramenta muito poderosa. Principalmente para as redes de ensino perceberem a abrangência de demandas implicadas na transformação das escolas que buscam a inclusão.

Para que isso aconteça de uma forma genuína, é importante que as secretarias de educação consigam coordenar as várias ofertas e possibilidades que o setor privado oferece. Ela é a ponte para que esses apoios dialoguem com o plano de educação do território para formar, de fato, sinergias positivas.

A busca por sinergia deve caminhar para a criação e fortalecimento de políticas públicas, pois elas são o caminho para conseguirmos escala e endereçarmos o enorme desafio que temos pela frente.

FVW: Quais os principais avanços na educação inclusiva nas duas últimas décadas? E quais ainda são os maiores desafios?

RHM: Foram muitos. Também é importante celebrar as conquistas. Em 2004, dados do Ministério da Educação (MEC) indicavam que a Educação Básica tinha 560 mil alunos com deficiência matriculados em escolas regulares. Atualmente, esse número é de 970 mil. Ou seja, um crescimento de cerca de 70%.

A segunda conquista se refere ao tipo de ambiente frequentado por esses estudantes. Em 2004, apenas 35% deles frequentavam ambientes de inclusão, convivendo com os demais alunos. Hoje, esse dado está próximo de 90%. São números muito expressivos, que devem ser lembrados.

Fazendo um contraponto e pensando em desafios, comparando essas matrículas com o total do público que está na Educação Básica, os números ainda são muito incipientes.

No melhor cenário, que é o Ensino Fundamental I, temos 2,9% das matrículas ocupadas por esse segmento. Se pensarmos que a Organização Mundial de Saúde (OMS) prevê que as pessoas com deficiência representam 15% da população, a distância a ser percorrida é imensa, mesmo com as variações por faixa etária.

Também não é possível ter números precisos. O método adotado pelo Censo Escolar é diferente do adotado pelo Censo Populacional. A estimativa é que muitas crianças e adolescentes com deficiência estão fora da escola. Isso é urgente: precisamos trazer todos, sem deixar ninguém para trás.

FVW: Qual o papel dos educadores nesse processo de integração? E das famílias?

RHM: A integração é um paradigma diferente da inclusão. Antigamente, acreditava-se que a pessoa com deficiência poderia, sozinha, assumir o ônus de integração. Ela era a responsável pela adaptação que garantisse sua participação na sociedade. Nesse modelo, a superação é um processo praticamente individual.

Evoluindo para o paradigma da inclusão, existem esforços e mudanças das duas partes. Isso requer rupturas muito importantes, além da abordagem que prevê a superação coletiva.

É importante que não caiba somente ao educador a responsabilidade de transformar a escola, e sim a todos os envolvidos. Eles são sim fundamentais, na medida em que se veem como protagonistas que podem explorar a sua capacidade de criação nas salas de aula.

A mesma coisa com as famílias. Temos pesquisado boas práticas no mundo todo, e não é possível construir um modelo de educação inclusiva que se perpetue sem a participação da família no cotidiano da escola. E a valorização da opinião desses familiares pode ajudar a derrubar barreiras.

FVW: Existe mercado para empreender em educação inclusiva? Quais são possíveis caminhos?

RHM: Mesmo reconhecendo os avanços, ainda há muito para se melhorar. O tamanho do setor da educação no Brasil é gigantesco. Há cerca de 50 milhões de estudantes, dois milhões de professores e 200 mil escolas. Todos são participantes e também responsáveis pelo entendimento do que é educação inclusiva e por mudarem suas práticas, suas estratégias e seus projetos pedagógicos.

Há muito espaço para se empreender, desde que fique claro o papel de cada um. A iniciativa privada deve contribuir com a política pública existente, sem tentar substituí-la, mas somar e trabalhar em parceria.

FVW: Como os recursos tecnológicos contribuem com soluções educacionais inclusivas e inovadoras?

RHM: A tecnologia é uma aliada muito significativa para a promoção de uma sociedade inclusiva, eliminando barreiras.

Hoje, uma escola consegue adquirir um equipamento que transforma texto impresso em digital. Dessa forma, um aluno cego pode ter acesso a esse conteúdo usando um software que transforma o material digital em áudio.

O mais importante é que a tecnologia traz uma gama muito ampla de possibilidades de exploração e de oferta de materiais didáticos para o educador.

É possível se desprender do formato do livro impresso e trabalhar com vídeos, imagens, áudios, links da Internet. Esse é um dos princípios da educação inclusiva: a necessidade de trabalhar com múltiplos formatos de um conteúdo, múltiplas estratégias de relação com esse conteúdo e diferentes formas de gerar engajamento.

A tecnologia, sozinha, não vai dar conta. Precisamos pensar em atitudes e outras barreiras, mas ela mudou completamente as perspectivas em uma sala de aula.

FVW: O ensino público no Brasil ainda apresenta dados muito desafiadores. Como você vislumbra as duas próximas décadas? Há alguma experiência internacional que mereça destaque?

RHM: Um dos nossos sonhos é que classes cada vez mais heterogêneas sejam vistas positivamente. Alguns gurus da educação ressaltam a ideia de que a educação inclusiva é um ótimo caminho para abrir as portas para quem estava de fora, historicamente. E mais do que isso: para que a gente consiga melhorar a qualidade da educação.

Diferentemente da escola homogeneizadora, a escola das diferenças dá essa oportunidade, desde o primeiro contato da criança com o ambiente escolar. A presença da diversidade na sala de aula força o professor a sair da sua zona de conforto. A buscar novas alternativas didáticas, a se reciclar e a investir em planejamento.

Em relação às experiências estrangeiras, temos buscado escolas fora do Brasil. Uma delas é a Henderson School, em Boston (EUA). Essa instituição de ensino é pública e tem como regra que 30% de suas matrículas sejam destinadas às pessoas com deficiência. E é uma das escolas com maior desempenho na região.

Fui surpreendido ao pesquisar sobre redes internacionais de ensino; esperava encontrar essa questão mais resolvida. A verdade é que este é um desafio em todas as partes do mundo: ainda não encontrei uma rede que possa se declarar efetivamente inclusiva.

O mundo inteiro está em busca dessa nova concepção, e mesmo os países mais ricos enfrentam dificuldades. Existe um espaço muito interessante para a cooperação internacional. Nosso trabalho também é estabelecer uma rede global de pesquisadores e educadores que se ajudem com estratégias e encaminhamentos para qualquer contexto social e cultural.

FVW: Qual a importância de projetos como o DIVERSA Presencial, realizado pelo Instituto Rodrigo Mendes em parceria com a Fundação Volkswagen? Como o projeto tem impactado as políticas públicas dos municípios participantes?

RHM: O DIVERSA nasceu como um portal na Internet, com o objetivo de oferecer referências. Professores de diversos municípios nos procuravam, manifestando suas dificuldades e angústias sobre como atender crianças com deficiência. E nós percebíamos nas formações que existiam experiências muito ricas e criativas, mas que não tinham alcance, eram restritas àquela localidade.

A ideia era criar esse acervo de boas práticas e mostrar que o Brasil inteiro já tinha educadores conseguindo implementar essa concepção. E, com isso, ser um veículo de promoção da educação inclusiva.

O portal cresceu muito e nós fomos diversificando o conteúdo. Há 2 anos, notamos que seria interessante trazer os usuários desse portal para encontros presenciais. Foi assim que surgiu a ação voltada à formação.

O DIVERSA Presencial prevê atividades com a reunião de educadores de várias redes de ensino. Durante esses encontros, eles trazem casos reais em que eles se sintam desafiados a incluir uma criança ou adolescente com deficiência. O próprio grupo, com a nossa mediação, passa a discutir e propor soluções para aquela situação.

Com reuniões quinzenais, é possível que eles acompanhem os desdobramentos e o desfecho das ações estratégicas propostas nos encontros anteriores, fazendo ajustes. Essa estratégia é muito poderosa, pois os educadores se empoderam. Eles percebem que, com suas histórias de vida e com o apoio dos colegas, é possível solucionar casos que antes pareciam impossíveis.

Em parceria com a Fundação Volkswagen, já trabalhamos com 13 municípios ao longo de 2 anos e impactamos mais de 13 mil estudantes. Mas o mais bacana é ver como a cidade passa a mudar o seu olhar para a questão da inclusão.

Somos muito agradecidos por essa parceria com a Fundação Volkswagen; estamos ampliando muito os horizontes de milhares de crianças e adolescentes.

 

Assista ao vídeo abaixo, com os melhores momentos do bate-papo. A versão com audiodescrição está disponível no canal do YouTube.