Conversa Social: “Muito do que podemos construir em termos de Brasil vem da educação profissional”

Lucília Guerra, do Centro Paula Souza, reflete sobre os desafios e oportunidades para a educação profissional no País
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Lucília Guerra, do Centro Paula Souza

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 56 milhões de brasileiros estavam aptos a frequentar um curso técnico de nível médio em 2017. Contudo, naquele ano, o País registrou somente 2 milhões de matrículas nessa modalidade.

Dados como esses indicam, ao mesmo tempo, as oportunidades e as dificuldades que a educação profissional enfrenta para se consolidar como uma potente ferramenta de empregabilidade, geração de renda, desenvolvimento de competências e habilidades e, consequentemente, como propulsora da mobilidade social dos brasileiros.

Para falar dessas e de outras questões, a coluna Conversa Social da Fundação Volkswagen entrevistou Lucília Guerra, Diretora do Centro de Capacitação Técnica, Pedagógica e de Gestão do Centro Paula Souza (CPS). Vinculada à Secretaria do Desenvolvimento Econômico, a autarquia é responsável pelo ensino profissional no Estado de São Paulo. O  CPS oferece cursos técnicos e tecnológicos, formação inicial e continuada e cursos de pós-graduação para 292 mil alunos, em 223 Escolas Técnicas e 73 Faculdades de Tecnologia.

Leia, abaixo, a entrevista na íntegra:

Fundação Volkswagen: No Brasil, o Ensino Médio vem passando por uma série de transformações recentes, sobretudo após a homologação da Base Nacional Comum Curricular, em 2018. Como a BNCC tem influenciado esse movimento?

Lucília Guerra: A nova legislação, incluindo a Base Nacional Comum Curricular recém-aprovada, mostrou-se um grande desafio para nós do Centro Paula Souza, que refletimos muito sobre o papel do professor, sobre a qualidade da educação e sobre a importância do Ensino Médio. Essa é uma reflexão antiga que fazemos e um desafio permanente para nós.

É importante considerarmos, sempre, o ponto de vista dos alunos. Essa legislação abre possibilidades para criarmos novos caminhos, permitindo que os estudantes tenham satisfação durante essa época fundamental de suas vidas, a fim de que consigam fazer uma prospecção de carreira e construam projetos para o futuro. Eles também precisam pensar sobre a continuidade dos estudos e de sua formação. Será que o Ensino Médio está atendendo a tudo isso ou é anacrônico frente a tantas transformações de mundo?

Infelizmente, do jeito como está hoje, os alunos geralmente não se interessam pelo Ensino Médio. Para o Centro Paula Souza, é essencial atrair esse jovem, fazendo com que os educadores entendam suas necessidades e anseios, sem descuidar da qualidade e do que determina a legislação. Nós estamos com novos projetos que atendem à BNCC e esperamos que, com a nova formatação que estamos propondo, possamos oferecer um Ensino Médio mais atraente e garantir a permanência qualificada dos jovens em nossas escolas.

FVW: Segundo pesquisa do IBGE, mais de 56 milhões de brasileiros estavam aptos a frequentar um curso técnico de nível médio em 2017; porém, houve somente 2 milhões de matrículas. Quais os desafios e as oportunidades para a educação profissional no Brasil?

LG: A educação profissional no Brasil é tratada de modo quase irresponsável. Na maior parte do mundo, ela é vista com legitimidade. Já em nosso País, é vergonhosa a forma como o tema tem sido abordado. Infelizmente, temos um volume de adesão muito inferior a países como o Chile, que tem uma proximidade estrutural com o Brasil.

Particularmente no Estado de São Paulo, tivemos muitos avanços, em parte graças ao Centro Paula Souza, que possui uma oferta muito diversificada de educação profissional. Temos mais de 150 cursos nas mais variadas áreas e uma pulverização bastante razoável em todo o Estado. Então, temos tentado diminuir esse passivo na sociedade, fazendo uma oferta muito consistente, para que os alunos possam ter opções e um atendimento adequado. Não somente os jovens e adolescentes, mas também os adultos que queiram uma formação profissional.

Em São Paulo, nós estamos nos esforçando, mas entendemos que o Brasil como um todo, no que se refere ao Plano Nacional de Educação, ainda está muito longe do minimamente ideal para atender às metas de que o País precisa para evoluir e crescer. Sabemos que muito do que podemos construir em termos de Brasil vem da educação profissional, da profissionalização das pessoas. Os brasileiros necessitam de melhores oportunidades, precisam melhorar sua qualificação profissional para que tenham melhores salários e estabilidade no mercado de trabalho. É importantíssimo que a educação entenda, diagnostique esse desafio da sociedade e responda a ele da melhor forma possível.

FVW: O Centro Paula Souza é uma referência nacional tanto para o Ensino Médio quanto para a educação profissional e tecnológica, inclusive em nível superior. Como vocês têm se preparado para formar os profissionais do século XXI, diante de transformações como a indústria 4.0?

LG: Os desafios da modernidade vieram como uma provocação para que abríssemos uma seara nova de descobertas na educação. A indústria 4.0, por exemplo, é um dos assuntos do momento e tem pautado nossa formação continuada, nossos cursos e também a elaboração e reelaboração curricular. Nós temos vários cursos voltados a essa tendência e, principalmente, temos parcerias com o setor produtivo. Elas são fundamentais para conseguirmos alcançar um nível de atualidade suficiente e prepararmos adequadamente as pessoas.

Trabalhando em consonância com as necessidades do mercado, raramente teremos profissionais que não dialoguem com elas. A indústria 4.0 é um desafio para toda a malha educacional deste País, pois há muitas questões que precisam ser descobertas, mapeadas e, sobretudo, ensinadas antes dos alunos chegarem ao mercado de trabalho. Assim, eles serão empregados da forma mais assertiva. O Centro Paula Souza tem preparado seus professores e, principalmente, seus currículos. Os currículos precisam estar atualizados, para um diálogo alinhado às necessidades contemporâneas. Acredito que o binômio capacitação de professores e atualização curricular é fundamental para que a gente consiga ter êxito nessa tarefa.

FVW: De acordo com estudo encomendado pelo SENAI, profissionais que fizeram cursos técnicos têm um acréscimo médio de 18% na renda. De que modo a educação profissional pode contribuir para a mobilidade social dos brasileiros?

LG: É muito importante refletirmos sobre a relação entre educação profissional e mobilidade social. Como as carreiras precisam ser desenhadas e os currículos redefinidos para que as pessoas possam, a partir de sua escolarização, alcançar objetivos relacionados a seus empregos, à sua empregabilidade e, assim, conseguirem evoluir de patamar social?

Nós acreditamos que a mobilidade social tem muito a ver com a preparação que a pessoa tem para a vida. Então, aquilo que ela vai adquirindo na escola e o modo como ela vai crescendo na sua formação profissional fazem toda a diferença na forma como ela encara os desafios cotidianos e, principalmente, os desafios do mundo do trabalho.

O mundo do trabalho é muito mais do que o mercado de trabalho. Ele é mais aberto. A leitura desse mundo tem que ser feita o tempo todo, inclusive pela própria escola. Quando fazemos isso adequadamente, conseguimos encaixar os perfis profissionais dentro de novos contextos. Como no caso que discutimos sobre a indústria 4.0, há muitas novidades. Então, esse mundo deve ser lido e relido continuamente.

Assim, nós conseguiremos entender como ajudar as pessoas, a partir da formação, a realizarem uma mobilidade positiva na sociedade, para que elas alcancem patamares sociais melhores, mais conforto e qualidade para suas vidas e de suas famílias. Isso é muito importante para a escola também. Não é só um problema dos outros; é um desafio que a escola tem de assumir de qualquer forma.

FVW: O Centro Paula Souza e a Fundação Volkswagen são parceiros em ações voltadas à formação de professores. Como a colaboração entre o poder público e o terceiro setor pode contribuir para a melhoria da qualidade da educação?

LG: A educação precisa sempre de apoios. O terceiro setor é fundamental, porque ele dialoga com a sociedade em tempo real. Por mais que as empresas e as instituições em geral também possam ser bons parceiros, bons amigos da escola, nós acreditamos muito que o terceiro setor traz uma brisa de realidade para as nossas ações.

A Fundação Volkswagen, em especial, tem sido um parceiro muito querido do Centro Paula Souza, em função de ações de muita importância que nós temos feito em conjunto. Realizamos uma ação de maior permanência, relacionada à causa da mobilidade urbana e à segurança no trânsito. Esse trabalho tem sido muito revelador. Entendemos que os projetos que são desenvolvidos em parceria com a Fundação Volkswagen trazem, também, uma força de diálogo bastante interessante. Nossos professores gostam muito, porque eles entendem que as ferramentas utilizadas podem ser aplicadas em vários outros projetos.

Então, a contribuição da Fundação vai além da mobilidade, pois contempla metodologias de projetos para a sala de aula. Sabemos que as metodologias ativas e diversificadas são um grande atrativo para que os alunos tenham uma permanência qualificada. O professor motivado e o aluno motivado fazem uma escola feliz, uma escola que realmente funciona. Então, somos muito gratos às nossas parcerias e, em especial, à parceria com a Fundação Volkswagen, que é uma instituição muito séria e que tem um trabalho muito bem estruturado.

Em relação a outras instituições do terceiro setor com as quais também nos relacionamos amplamente, nós entendemos o quanto são fundamentais para que a gente obtenha uma análise diagnóstica mais perfeita daquilo que a sociedade almeja para nossos jovens, para que eles sejam críticos e possam ser protagonistas na mudança do mundo. Nós agradecemos sempre ao terceiro setor e esperamos ter ainda mais projetos e parceiras com essas instituições que contribuem tanto conosco.

Confira os melhores momentos da entrevista no vídeo abaixo. A versão com audiodescrição está disponível no canal do YouTube.

 
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