Conversa Social: “Não se falará em superação das diferenças sociais e econômicas sem falar em educação”

Helton Souto Lima, do Instituto Ayrton Senna, fala sobre a união de setores para o desenvolvimento do País
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Mesmo com avanços no acesso à escola no Brasil, a qualidade na educação ainda é um grande desafio, que impacta diretamente no desenvolvimento sustentável do País.

Educação qualificada e que promova a formação integral de crianças e adolescentes ainda não é realidade na maior parte das instituições de ensino. Questões como a evasão escolar e dificuldades na transição entre Ensino Fundamental e Médio refletem parte do cenário da educação brasileira. Segundo o Censo Escolar 2017, a taxa de evasão no Ensino Médio foi de 11,2%, o que significa que muitos jovens não têm concluído sua trajetória na escola.

Por outro lado, o investimento em formação continuada de professores e na educação integral é um dos caminhos apontados para promover a melhoria da qualidade no ensino e do desempenho escolar e, como consequência, o desenvolvimento e a mobilidade social.

Para debater essas e outras questões, o Conversa Social deste mês entrevista Helton Souto Lima, gerente de projetos da área de educação do Instituto Ayrton Senna, parceiro da Fundação Volkswagen, sobre o cenário e os possíveis caminhos para a educação no Brasil.

Leia abaixo, na íntegra:

Fundação Volkswagen: A educação formal é um dos fatores que mais impactam a qualidade dos indicadores de desenvolvimento humano de um país. Como podemos mensurar esse impacto? Qual o panorama geral brasileiro?

Helton Souto Lima: O Brasil conseguiu avançar muito em educação nos anos 1990, criando condições para o seu acesso. Ou seja, colocar todas as crianças e adolescentes na escola.

O desafio que ele ainda não sanou é a qualidade, promover uma educação que seja qualificada e promova o desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes. O Brasil ainda não atingiu essa fronteira, e precisamos avançar nesse aspecto, fundamental para um desenvolvimento maior e mais sustentável.

A educação é um fator fundamental no desenvolvimento de um país. Se ela não agrega acesso e qualidade de uma forma efetiva, estaremos sempre caminhando um pouco para trás, em busca de sanar essas dificuldades e esses problemas. Esse é um desafio brasileiro: ainda precisamos avançar em qualificação para poder casar o acesso à questão de avanço na educação.

No Ensino Médio, ainda temos um desafio de acesso, porque é uma fase de transição do Ensino Fundamental, e essa transição não é fácil, não ocorre de uma forma efetiva e qualificada na educação brasileira. Temos altos índices de abandono e evasão no Ensino Médio, e muitos jovens ainda fora da escola nessa etapa de ensino. Ainda não equacionamos totalmente a questão do acesso no Ensino Médio.

FVW: A formação de educadores, sobretudo na escola pública, ainda é um desafio nacional. De que forma a qualificação dos professores contribui para a melhoria dos indicadores educacionais? Que boas práticas merecem ser destacadas?

HSL: A qualificação do professor é fundamental e está associada ao sucesso do desempenho escolar dos alunos. Tanto do ponto de vista da aprendizagem – de um professor qualificado para apoiar o estudante no seu desenvolvimento – quanto pelo vínculo estabelecido entre o professor e aluno, a construção que se faz em termos relacionais também.

A experiência que nós temos é de que a formação sempre precisa estar acompanhada de um processo formativo em serviço. O professor precisa se sentir e ser acompanhado efetivamente na sua atuação e no seu trabalho em sala de aula.

O acompanhamento pedagógico, feito por gestores escolares e secretarias de educação, é fundamental para garantir o que o professor vivenciou em uma formação, quando ela existe. Esse processo de acompanhamento e monitoramento do seu trabalho faz com que esse profissional se sinta muito respaldado e assistido no desenvolvimento que ele fará com o seu aluno.

O Instituto Ayrton Senna tem várias experiências no campo de formação de professores. É importante destacar que nossa atuação é muito pautada por isso: oferecer uma formação, combinada às secretarias de educação, em um trabalho desenvolvido em conjunto, sempre associada ao acompanhamento da formação em serviço.

As experiências que nós temos em sala de aula do Ensino Médio em tempo integral no Rio de Janeiro e em Santa Catarina caminham nessa direção. Todo o processo que estamos desenvolvendo no Estado de São Paulo, já atuando com os anos finais do Ensino Fundamental, caminham nessa direção também.

Criando uma arquitetura de formação e acompanhamento para apoiar o professor no desenvolvimento do seu trabalho, os retornos que nós temos em relação a isso são sempre muito efetivos e muito bons.

Para os professores, essa formação significa muito, tanto para apoiá-los no desenvolvimento de projetos quanto no apoio à sua atuação na escola de uma forma mais ampla. E também veem essa formação como algo que vai ser muito importante e fundamental para o seu próprio desenvolvimento profissional, para além dos projetos em que ele está alocado em determinado momento.

FVW:  Atualmente, muito se tem debatido a respeito da importância da educação integral. Como ela pode alavancar a mobilidade social no País?

HSL: A questão da educação e da mobilidade social é algo muito presente e legítimo. Desde crianças, nós ouvimos nossos pais falarem para darmos importância à educação, estudarmos para avançarmos como pessoas, como profissionais no futuro.

Para as populações de baixa renda, ela se torna algo fundamental, porque é uma das principais vias de desenvolvimento e de mobilidade. Não se falará em desenvolvimento social, em equidade, em superação das diferenças sociais e econômicas, sem falar em educação.

Em relação à educação integral, estamos falando do ensino voltado a desenvolver plenamente as capacidades dessa pessoa, do ponto de vista da sua atuação social, seu desempenho pessoal, sua autonomia e suas capacidades como estudante. E que a  prepare também para as futuras profissões e para a sua vida profissional.

A melhor educação é a que vai olhar para essa pessoa como um todo, enxergar o seu direito para se desenvolver dentro de todos os âmbitos citados, criando oportunidades para que isso aconteça. Ela é capaz de promover desenvolvimento, uma mudança social e a mobilidade social que se espera. Não se fala de desenvolvimento de um país sem que as
pessoas possam transitar socialmente e, a partir disso, ter uma melhora efetiva de condições de vida.

FVW: Dados indicam um aumento considerável da evasão escolar durante a transição do Ensino Fundamental para o Médio. Como isso potencializa as desigualdades sociais? E o que pode ser feito para minimizar esse problema?

HSL: Um dos maiores desafios que temos é a transição entre o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. A falta de acesso, o abandono, a evasão de jovens nessa etapa de ensino potencializam as desigualdades. Estamos falando de estudantes sem acesso ao conhecimento e às possibilidades de desenvolvimento trazidas pelo Ensino Médio.

Como educador e gestor, eu me coloco a questão: “O que acontece com um adolescente que entra no Ensino Fundamental e quer ser artista, astronauta, cientista, que pretende ser e fazer tantas coisas na vida, mas, quando sai, não sabe se quer continuar na escola?”.

A questão passa a ser que este jovem não sabe se quer continuar os estudos. Algo aconteceu no meio do caminho. Essa pessoa se transformou e viveu uma série de experiências, a sociedade e a escola também. Olhar para isso é crucial, assim como entender os desafios de desenvolvimento pelos quais esse adolescente passa entre o início e fim do Ensino Fundamental.

Entender esse desenvolvimento, preparar a escola para isso, com condições de formação e de currículo que olhem para essa pessoa como alguém que está em uma fase de colaborar e conviver das mais diferentes formas, de acionar o conhecimento de formas diferenciadas. Jovens com a necessidade e o desejo de conhecer mais e de avançar mais no próprio desenvolvimento.

Como a educação olha para isso e dialoga com esses interesses e necessidades, de modo que esse estudante, que entrou no Ensino Fundamental querendo ser tanta coisa, com um projeto de vida repleto de possibilidades, continue os estudos? Que olhe para isso como uma continuidade? O Ensino Médio como mais uma estrada de desenvolvimento e possibilidades para que ele possa ser, ainda mais, quem ele quer ser.

Olhar para isso impõe uma série de tomadas de decisões em políticas públicas. Pensar em processos e projetos específicos, que respondam a essa necessidade do adolescente. Entender, com base em dados e evidências, que Ensino Fundamental é esse, quais são as dificuldades que precisam ser sanadas. Entender que adolescente é esse. Que escola, professor e gestor são esses, lidando com essas pessoas nessa fase tão importante de suas vidas.

Há, também, outras questões que contribuem para essa transição não acontecer. Questões mais objetivas: quais são as necessidades que esse jovem tem de trabalho, de apoio financeiro a sua família? Quais são as suas necessidades no campo da autonomia, suas próprias capacidades de adquirir e consumir determinados bens? Como o ambiente escolar dialoga com isso para preparar o aluno, fazendo com que a educação seja um vetor de desenvolvimento? Para que ele possa se formar e a escola seja um espaço para ele se desenvolver como pessoa, cidadão e futuro profissional, sem que ele a abandone para isso, mas que ela se torne um caminho para atingir os seus sonhos e avançar no seu projeto de vida.

FVW: A Fundação Volkswagen e o Instituto Ayrton Senna são parceiros em ações que contribuem para melhorar a qualidade da educação pública brasileira. Como o terceiro setor pode contribuir com essa causa?

HSL: O terceiro setor reúne algumas condições e expertises. Tem uma capacidade mais ágil de produzir conhecimento e criar determinadas condições para sua aplicação. Consegue reunir times de pessoas e especialistas em torno de determinadas ações e soluções, tendo uma proposição maior para lidar com determinados temas. Mas ele só será mais eficaz na sua atuação à medida que ele compuser com o poder público.

O poder público tem muito conhecimento e escala, e o entendimento do impacto das políticas sobre as pessoas. Ele está extremamente voltado ao cidadão, às pessoas. Esse é o seu foco de trabalho. E existe muita inteligência, capacidade e vontade de mudança dentro dele.

Cabe ao terceiro setor, apoiado pelas iniciativas privadas, pelo mundo empresarial e demais organizações, ativar isso. Ajudar o poder público e levantar essas possibilidades de soluções para os desafios existentes, de modo que a educação seja, de fato, um assunto que congregue a atuação de todos os setores da sociedade.

Costumamos dizer que a educação é uma questão complexa demais para ficar na mão de um único setor. Todos os setores da sociedade precisam atuar de uma forma corresponsável para o sucesso da educação, porque ela diz respeito e afeta a todos. Ela tem a ver com o desenvolvimento do País, da sociedade.

Se estamos inseridos nessa sociedade e neste País, cabe a nós atuarmos da melhor forma e em sinergia para avançar na qualidade da educação e nas possibilidades trazidas por ela.

Assista ao vídeo abaixo, com os melhores momentos da entrevista: