Conversa Social: “Precisamos começar a pensar no conceito de mobilidade humana”

Rafael Tartaroti, do MobiLab, reflete sobre as perspectivas e desafios para tornar as cidades espaços mais inovadores, inclusivos e humanos, com foco na mobilidade
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Como as novas tecnologias podem ser aplicadas nas cidades para a melhoria da qualidade de vida da população? Como implantar políticas públicas sólidas e eficazes para a mobilidade, sem grande impacto nas despesas? Quais são as possibilidades viáveis para facilitar os deslocamentos na maior metrópole do Hemisfério Sul?

Propor soluções de mobilidade urbana na cidade de São Paulo é um desafio e tanto. Após os protestos realizados em 2013, em decorrência do aumento tarifário do transporte público municipal, foi criado o Laboratório de Inovação em Mobilidade da Prefeitura de São Paulo (MobiLab), primeiro coworking público do Brasil.

A iniciativa surgiu da necessidade de incentivar o uso de dados da gestão pública em benefício de soluções e inovações desenvolvidas por startups. Duas maratonas de programação foram realizadas, com dados da SPTrans e da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). A partir disso, foram criados aplicativos de geolocalização dos ônibus para informar os usuários, em tempo real. O sucesso dessa experiência foi tamanho que deu origem ao Laboratório.

Rafael Tartaroti é Mestre em Administração Pública e Governo pela Fundação Getulio Vargas (FGV), Graduado em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade de São Paulo (USP) e um dos fundadores do MobiLab. Na entrevista deste mês, ele fala sobre os desafios da mobilidade urbana na capital paulista, abordando temas como cidades inteligentes e refletindo a respeito dos caminhos para que o setor público, as empresas e o terceiro setor atuem em conjunto em prol da mobilidade.

Leia abaixo, na íntegra:

Fundação Volkswagen: A mobilidade é uma questão desafiadora para grandes cidades, sobretudo no Brasil. É possível traçarmos um panorama geral sobre as conquistas dos últimos anos? O que é necessário priorizar na próxima década, considerando uma perspectiva mais inclusiva: do motorista ao pedestre, do ciclista ao cadeirante?

Rafael Tartaroti: As manifestações de junho de 2013 foram um marco histórico muito importante, pois visavam não somente à redução tarifária, mas à melhoria da qualidade dos serviços de transporte coletivo. Esse movimento foi fundamental para alavancar a agenda política de mobilidade urbana na cidade de São Paulo, colocando-a como prioridade. A discussão do tema, na academia, na mídia e na sociedade como um todo, reforça a relevância e o avanço das políticas públicas de mobilidade.

Em relação à inclusão, há uma história que sempre gosto de contar, de uma colega cadeirante. Durante 3 anos, ela morou em Chicago, nos EUA, e relatou que nunca teve muitas dificuldades para realizar suas atividades diárias por lá. De volta a São Paulo, ela sentiu um grande impacto e começou a ter que planejar suas viagens e toda a sua rotina. Precisava saber antes, por exemplo, se haveria vaga para estacionar o carro, se o ônibus seria acessível ou se a calçada permitiria seu deslocamento. Isso mostra que não são as pessoas que têm deficiências, mas as próprias cidades.

Por isso, precisamos pensar em um conceito mais amplo, que costumo chamar de mobilidade humana, ou seja, olhar para as políticas de mobilidade urbana sempre voltadas para as pessoas, para os cidadãos. Claro que é importante considerar o incremento nos deslocamentos pela cidade com o auxílio de bicicletas, carros compartilhados, patinetes, enfim, todos os modais possíveis. Porém, primeiro é necessário pensar no espaço público a partir das pessoas e de suas necessidades.

Meu desejo é que todos consigam se deslocar pelas cidades com segurança, de forma fácil e barata. O mundo inteiro caminha para isso: abrir o espaço público para o uso das pessoas. É assim que vamos construir uma cidade do futuro, proporcionando qualidade de vida aos cidadãos. Dessa forma será possível construirmos uma cidade mais inclusiva, agradável e inovadora.

FVW: Como é tratado o tema da mobilidade nas chamadas “cidades inteligentes”? Destacaria alguma experiência, no Brasil e em outros países?

RT: Quando discutimos as cidades inteligentes, muito se fala da utilização de novos hardwares, de muita tecnologia nova. Mas devemos olhar para o outro lado, ou seja, aproveitar com inteligência as tecnologias que já estão disponíveis e também pensar nas economias criativa, solidária e compartilhada.

Além disso, inteligência é não poluir o ar das cidades, priorizando veículos elétricos e não poluentes, com tecnologias mais acessíveis e eficazes. Portanto, as cidades inteligentes são aquelas que estão preocupadas com as pessoas, com o acesso de todas elas ao espaço público.

Ao mesmo tempo, é difícil falar disso para quem vive na região periférica e não tem acesso às tecnologias básicas com qualidade, como Internet ou smartphone. As cidades inteligentes estão em um plano muito embrionário, pensando em soluções muito avançadas que não se conectam, em geral, com a realidade do Brasil. Temos que pensar nas soluções existentes, que já estão aqui.

Inovação não é só tecnologia. No MobiLab, por exemplo, há uma cooperativa de entrega com bicicletas. Não há tecnologia de ponta nisso, mas eles inovaram na forma de prestar o serviço de entregas, geralmente por caminhão ou carro pequeno. E por cooperativa, não por empresa. Ou seja, eles distribuem o lucro entre eles. Isso também é inovador: a primeira cooperativa de entrega por bicicletas do País. Tudo isso é inovação: precisamos olhar para soluções mais fáceis, mais palpáveis, que estão ao nosso lado.

FVW: Qual o papel da inovação na mobilidade urbana, considerando as novas tecnologias e as startups, por exemplo, a partir de sua experiência no MobiLab?

RT: A inovação deve ser incentivada e há duas formas de se fazer isso pelo setor público. Na primeira, o Estado deve prover serviços ao cidadão. Já na segunda, cabe ao Estado fomentá-los.

Há, de fato, a necessidade de se contratar inovação para modernizar a máquina pública. No MobiLab, fazemos isso com a participação das startups. Mais do que isso, temos esse lado de trazer inovação para o poder público transformando-o em uma startup, de forma mais barata, ágil e inovadora.

Há serviços em que o setor público não deve investir recursos próprios diretamente, como aplicativos de ônibus, de bicicletas e de carros compartilhados, por exemplo. Mas é preciso fomentá-los, porque isso reflete diretamente na qualidade da mobilidade urbana.

Começamos a fazer isso em 2013, abrindo dados dos GPS dos ônibus. Na cidade de São Paulo, há 15 mil ônibus. A cada 35 segundos, eles emitem sua localização para a SPTrans, órgão responsável pela gestão do sistema de transportes. São Paulo foi a primeira cidade na América Latina a abrir essa informação.

Organizamos uma hacktona (maratona de programação) e, no primeiro mês, chegamos a mais de 60 aplicativos utilizando esses dados. Hoje, qualquer recurso para informar os horários e a localização dos ônibus utiliza esse sistema. Com a abertura dos dados, promovemos inovação e possibilitamos a criação de novos serviços para o cidadão, sem gastar muitos recursos.

Outra forma de fomentar a inovação passa pela criação de laboratórios, como o próprio MobiLab, que surgiu em 2014. Ele foi o primeiro espaço de coworking público do Brasil. Reunimos as melhores cabeças para pensar mobilidade urbana, olhando para as bicicletas, para soluções acessíveis, desafios de logística, inclusão de pessoas com deficiência, pedestres. Trazendo gente de fora, com olhares externos para resolver problemas internos. É o que está dando certo ultimamente.

Acredito que o segredo passa por abrir dados públicos e privados, trazer pessoas que estão interessadas no tema e são qualificadas, oferecer um espaço colaborativo e ajudar, dando apoio, suporte técnico, visibilidade e incentivo financeiro, quando for o caso. Com isso, é natural a melhoria do serviço, seja público ou privado.

FVW: Os deslocamentos em São Paulo (SP) afetam diretamente a qualidade de vida da população, sobretudo dos bairros mais afastados e cidades vizinhas (acesso a serviços, educação e empregabilidade, por exemplo). Como o planejamento urbano pode minimizar esse impacto social?

RT: O planejamento urbano é uma questão anterior, ou seja, trata de economia urbana, organizar as cidades para depois organizar a mobilidade.

Hoje, em São Paulo, há três grandes centros, que têm educação, saúde, lazer, equipamentos públicos e privados de qualidade. Todos os deslocamentos da periferia convergem para eles. Esse movimento acontece também nas cidades vizinhas, da região metropolitana. É pendular: as pessoas vêm de manhã e retornam à tarde. Isso gera desconforto no transporte coletivo, menor velocidade, mais tempo de deslocamento e uma série de problemas para o cidadão que mora em regiões mais afastadas.

A solução para evitar o deslocamento pendular é criar novos subcentros na cidade, que devem prover educação, saúde, acesso a equipamentos públicos e privados, lazer e cultura. O intuito não é segmentar, mas gerar oportunidades para que as pessoas consigam fazer nos subcentros tudo o que elas precisam fazer nas grandes regiões, grandes centros urbanos, que ainda são pouquíssimos.

FVW: A mobilidade urbana é uma das causas apoiadas pela Fundação Volkswagen, sobretudo por meio da formação de educadores e adolescentes para um trânsito mais seguro e sustentável. Como o terceiro setor pode contribuir com essa causa?

RT: A participação do terceiro setor na política pública é muito importante, tanto na formulação quanto na implementação.

Na formulação, ele atua subsidiando o formador da política pública com pesquisas, diagnósticos e advocacy, ou seja, mobilizando todos os atores interessados no tema. Com isso, o terceiro setor auxilia na elaboração de políticas .

Na implantação, contribui para preencher as lacunas que o poder público não consegue resolver, oferecendo treinamento e capacitação para os executores das políticas públicas, por exemplo. A qualificação dos executores também é importante, pois, sem ela, a política pública não atinge todo o potencial para o qual foi elaborada. Por isso, o terceiro setor é sempre muito bem-vindo para nos ajudar a implementar políticas, sejam de mobilidade urbana, educação, saúde ou qualquer outro setor.

Assista ao vídeo abaixo, com os melhores momentos do bate-papo: